Alterações posturais no idoso

Esqueleto humano em vista lateral, mostrando as alterações posturais ao longo da idade de 55 anos, 65 anos e 75 anos subsequentemente

Fernanda Cerveira

A arquitetura óssea que compõe e sustenta o corpo humano sofre uma considerável alteração, no que diz respeito à densidade mineral óssea e a microarquitetura óssea durante o envelhecimento. Sabe-se que há uma redução na densidade dos ossos e, que essa redução, dá-se mais precocemente na coluna vertebral que nos membros. Segundo Guccione (2002), a perda óssea em homens acontece em uma taxa de cerca de 0,4% por ano, iniciando-se aos 50 anos de idade e não se torna caracteristicamente problemática até que o homem esteja na faixa dos 80 anos.

Novamente segundo Guccione (2002), em homens e mulheres entre 60 e 80 anos, a taxa média de diminuição na altura é de cerca de 2cm por década, podendo atingir até 12 cm nos casos mais extremos de perda óssea.

De acordo com o I Consenso Brasileiro de Osteoporose, a desproporção entre as funções dos osteoblastos e osteoclastos tem início em torno dos 40 anos de idade e são mais perceptíveis nas mulheres que nos homens, provavelmente devido à vulnerabilidade aumentada das mulheres para a perda de massa óssea, principalmente nas pós-menopáusicas em virtude da redução nos níveis estrogênicos. Entretanto, Guccione (2002), salienta que a perda mineral óssea não ocorre com tanta rapidez nas mulheres com peso excesivo. Longcope e col. (1995 apud GUCCIONE, 2002), sugeriram que isso é uma conseqüência da produção de estrogênio periférico pelo tecido adiposo.

Ainda falando a respeito das alterações na microarquitetura óssea, Atkinson e col. (1988 apud GUCCIONE, 2002), através de um estudo, avaliaram o tecido ósseo trabecular com a finalidade de determinar os padrões relacionados à idade. Foi possível detectar que as trabéculas horizontais diminuíram; entretanto, houve um espessamento concomitante de algumas das trabéculas verticais. Por conseguinte, não houve perda apreciável do tecido ósseo no total até os 50 anos de idade, porém uma redução na força mecânica do corpo vertebral devido a perda das trabéculas horizontais.

O idoso não está sujeito apenas a modificações na sua arquitetura ou na densidade óssea, a alteração no disco intervertebral relacionada a idade é um fenômeno bastante conhecido e que segundo Hall (1993) acontece durante toda a vida, iniciando-se por volta da segunda década de vida. Guccione (2002), relata que em geral, o envelhecimento altera as propriedades e a proporção relativa dos elementos do tecido conjuntivo do disco intervertebral. A elastina torna-se menos distensível e pode sofrer fragmentações sucessivas.

Hall (1993) afirma que as lesões e o envelhecimento reduzem irreversivelmente a capacidade de absorção de água pelos discos, resultando numa diminuição na sua capacidade de absorção de choque. O mesmo autor diz ainda que um disco geriátrico típico possui um conteúdo líquido reduzido em cerca de 35%. Com a ocorrência dessa alteração degenerativa fisiológica, movimentos anormais entre os corpos vertebrais adjacentes serão observados e uma maior proporção das cargas compressivas, de tração e de cisalhamento que agem sobre a coluna, deverá ser suportada por outras estruturas – mais especificamente as facetas e as cápsulas articulares.

A redução da altura da coluna vertebral, as alterações degenerativas nas estruturas vertebrais que são forçadas a suportar carga dos discos e as alterações posturais, podem ser apontadas como o resultado das diversas modificações já citadas.

A estabilidade dos segmentos móveis e a sustentação da coluna vertebral também apresentam alterações no idoso. Um estudo realizado por Tkaczuk demonstrou que a “capacidade dos ligamentos anterior e posteriores da coluna vertebral reduzem com o avanço da idade”. (Tkaczuk apud Guccione, 2002, p.256) Do mesmo modo Nachemson e Evans (1976 apud GUCCIONE, 2002) apontam diminuição na capacidade de realizar tensão de “repouso” sobre a coluna vertebral. Fica óbvio então que no indivíduo idoso a ausência da força de tensão dos ligamentos e a resultante frouxidão irão contribuir para a adoção da postura flexionada para frente.

Uma outra modificação no sistema músculoesquelético comum está relacionada a cartilagem articular. Para Guccione (2002), pode-se observar alterações da estrutura do colágeno como redução do comprimento das cadeias de condroitina na cartilagem articular. Porém é importante salientar que tais alterações não indicam que a pessoa possui uma doença articular degenerativa ou virá a apresentá-la, e sim que existe uma possibilidade aumentada de que a cartilagem articular possa passar por microfraturas ou lesão a partir de forças como o desgaste, obesidade, trauma, doença metabólica ou fatores hereditários.

Kauffman (2001), afirma ainda que a doença degenerativa articular é uma patologia comum relacionada à idade que envolve alterações ósseas e da superfície articular. Os osteófitos, resultantes da osteoartrite, podem evitar o movimento articular normal, provocam dor e possivelmente comprimem os nervos, com subseqüente radiculopatia que inclui fraqueza muscular e desequilíbrio. Os ajustes posturais podem ser resultado de tentativas de aliviar o peso de um osteófito para reduzir a dor ou para acomodar uma radiculopatia.

Outras alterações no sistema musculoesqueléticos que podem afetar as alterações posturais podem ser observadas nos músculos. Segundo Kauffman (2001), “o comprimento do músculo pode estar aumentado ou diminuído. Há perda das fibras musculares, o que provavelmente resulta em redução da força”. Com relação à força muscular, Guccione (2002), refere que esta atinge seu máximo com cerca de 30 anos e permanece constante até cerca de 50 anos, começando então, a mostrar uma perda crescente que faz algum paralelo com o declínio do tecido corporal magro.

KAUFFMAN (2001), salienta também a alteração existente entre a relação das fibras do tipo I e II que implicaria diretamente na resposta e nos mecanismos do controle postural. Tal alteração é reafirmada por GUCCIONE (2002), que a complementa frisando a diminuição na quantidade de fibras musculares do tipo II de contração rápida, à medida que a pessoa envelhece, associado ainda a redução concomitante na atividade da miosina adenosino-trifosfase (ATPase). Isso tende a explicar porque existe um alongamento no tempo para atingir a tensão máxima do músculo e um alongamento da metade do tempo de relaxamento. As conseqüências funcionais da atrofia muscular pré-vertebral e pós-vertebral poderiam resultar em algumas das alterações posturais e biomecânicas observadas em idosos.

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