Atividades físicas e promoção da saúde na infância e adolescência: aspectos fisiológicos e posturais

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Fernanda Cerveira e Luzimar Teixeira

A compreensão de que as experiências que as crianças têm nos primeiros anos de suas vidas definem em grande parte os adultos que serão e de que todas as crianças, consideradas suas características e limitações, têm o direito ao desenvolvimento ótimo de suas potencialidades motoras, fez aumentar a preocupação com a Educação Física Escolar.

Trabalhar com seres humanos em sua idade de maior sensibilidade às mudanças e, portanto, suscetíveis às interferências positivas ou negativas, é uma grande responsabilidade. Quando essas crianças apresentam alguma necessidade especial decorrente de uma doença ou distúrbio da saúde o trabalho demanda uma ação envolvendo os diversos profissionais da área de Saúde Escolar e deve ser parte integrante da atenção à saúde e o desenvolvimento da criança e do adolescente.

Enfatizar o desenvolvimento das capacidades físicas, motoras e aprendizagem de habilidades não é só ensinar e ajudar a fazer um movimento, e sim fazer entender e compreender a necessidade e a importância das atividades físicas como promoção de saúde e prevenção de doenças/distúrbios.

Serão apresentadas a seguir algumas situações e exemplos que tem como objetivo chamar a atenção para a necessidade de programas em Educação Física Escolar que atendam a todos e possam ser promotores de saúde.

Prontidão física e fisiológica

A criança e o adolescente apresentam particularidades físicas e fisiológicas próprias da fase de crescimento, com implicações nas suas atividades motoras, principalmente no que se refere a sua capacidade de suportar trabalho. Nessa fase, as atividades motoras são estímulos para o crescimento e desenvolvimento quando adequadamente praticadas. Por outro lado, os esforços físicos exagerados, com cargas máximas na busca de rendimento, além das exigências de ordem emocional, podem provocar danos na estrutura corporal.

Adequar o esforço não significa apenas reduzir a quantidade de carga ao estilo do “trabalho para adulto reduzido”. Cada faixa etária tem suas características de crescimento e desenvolvimento, além das diferenças individuais, significando que crianças com mesma idade cronológica/biológica podem ter capacidades diferentes. Deve-se lembrar ainda que a prontidão motora para executar um determinado movimento pode estar presente, mas a física e fisiológica ainda não (Por exemplo, a força nos arremessos).

O ser humano tem capacidade de adaptação a diversas situações e estímulos do ambiente. Biologicamente, essas adaptações representam mudanças na forma e função de sistemas, órgãos e tecidos, não havendo uma separação clara entre forma e função devido a ocorrências de mudanças recíprocas. A prática de atividades motoras provoca adaptações de ordem morfológica (massa muscular) e funcional (metabolismo de energia).

Proporcionar estímulos adequados às atividades físicas resulta em adaptações e melhorias na aptidão física e na capacidade de desempenho. Por outro lado, estímulos excessivos e/ou inadequados podem levar a exigências inadequadas dos sistemas e estruturas, trazendo, com certeza, prejuízos.

Há de se compreender também que, além dos estímulos adequados em quantidade e intensidade, deve-se considerar a velocidade com que ocorrem as adaptações orgânicas. Exemplificando: com uma semana de estímulos físicos, o sistema muscular já pode apresentar mudanças morfofuncionais, enquanto no sistema ósseo essas mudanças só ocorrem depois de várias semanas. O respeito a essas diferenças pode assegurar tempo suficiente para que ocorram adaptações orgânicas, evitando lesões na estrutura. Em resumo, o organismo se beneficiará se a carga de trabalho for adequada (quantidade e intensidade) e no tempo certo.

Quando comparada ao adulto, a criança está mais exposta aos danos provocados por uma carga inadequada de trabalho. O risco maior e especialmente danoso é a sobrecarga ortopédica, pois a capacidade de ossos, tendões e ligamentos suportarem um trabalho é menor, tornando-se assim um fator limitante em treinamentos físicos.

Aspectos posturais

Após os 8 anos de idade, a criança apresenta alternâncias no desenvolvimento de órgãos e sistemas. O crescimento ósseo, por exemplo, se alterna com o crescimento da musculatura esquelética, resultando numa desproporção esquelético-muscular. Nessa etapa, a musculatura sofre um atraso em relação ao esqueleto. Esse fato é muito importante para a coluna vertebral, pois a musculatura não apresenta as mesmas condições de proteção para vértebras e discos intervertebrais, o que a torna mais suscetível a lesões. A coluna lombar, sujeita a cargas de tração, compressão e torção, apresenta maior incidência de lesões discais com os traumas agudos provocados pela intensidade e duração de treinamentos. Assim, para um desenvolvimento adequado, a estrutura corporal necessita de atividades motoras apropriadas para prevenção e não provocação de alterações posturais, uma vez que estas estão associadas às intercorrências na aquisição da postura. As diferentes taxas de crescimento ósseo, com conseqüentes mudanças nas proporções corporais, fazem com que o crescimento provoque mudanças na postura. São as adaptações às novas exigências de equilíbrio. O padrão de postura está se fixando para o ajuste definitivo à gravidade. Portanto, atividades motoras unilaterais e/ou com sobrecargas, que exigem e desgastam a estrutura de apoio, provocam, num organismo em crescimento, danos imediatos e futuros, devendo ser evitadas. Além disso, é importante considerar que, devido ao baixo nível hormonal, as cargas de força são, além de improdutivas, perigosas. Somente após os 15 anos de idade, a musculatura está desenvolvida de forma a proteger adequadamente a coluna vertebral.

Lesões por sobrecarga

Cuidados são necessários também para possíveis danos físicos localizados e áreas típicas sujeitas a lesões, principalmente os membros inferiores e em especial joelhos e tornozelos. As solicitações anatômicas e biomecânicas características de cada modalidade de esporte são variadas e, portanto, predispõem a diferentes tipos e localizações de lesões. Podem ocorrer por um trauma direto (lesão instantânea, macrotrauma) ou por cargas repetidas sobre o aparelho locomotor (microtrauma repetido). As causas se devem a fatores intrínsecos e extrínsecos, sendo que a combinação dos mesmos leva a lesões por “overuse”.

Os fatores intrínsecos incluem, além dos desequilíbrios musculares, as alterações da base inferior (pés e pernas) e superior (pelve), alterações essas geralmente associadas às da coluna vertebral. As deficiências nos pés aparecem freqüentemente combinadas com alterações na coluna vertebral e nas pernas, o que provoca “efeitos em cadeia” sobre a postura e a locomoção. A capacidade dos pés para sustentação e locomoção depende de seus arcos. A modificação dos mesmos altera a posição dos ossos e a função dos músculos, provocando, como conseqüência, deficiências na postura e na marcha. O membro inferior é considerado uma unidade funcional, significando que uma alteração de pés ou pernas afeta toda a extremidade inferior. O pé pronado, por exemplo, resulta num aumento da torção do tendão de Aquiles, o que leva a uma concentração de estresse na articulação. O pé cavo apresenta uma concentração de estresse no antepé e calcâneo, levando a fasciites plantares e tendinites do tendão de Aquiles. Outros aspectos anatômicos, como encurtamento de membro inferior, ante ou retroversão da pelve e insuficiências musculares, levam a mudanças no mecanismo de contração muscular e causam problemas articulares.

Os fatores extrínsecos são as cargas inadequadas de treinamento (quantidade e intensidade), técnicas inapropriadas, erros técnicos na execução do movimento, calçados e locais inadequados. A associação entre esses aspectos pode ser extremamente maléfica. A sobrecarga mecânica da repetição errônea do movimento com a quantidade/intensidade também inadequadas de treinamento atingem de forma danosa os sistemas muscular e osteoarticular.

O que dizer então da associação dos fatores intrínsecos e extrínsecos? Pode ultrapassar toda a capacidade de adaptação do organismo, conduzindo à fadiga com alteração não só na capacidade e precisão do movimento como também uma predisposição às lesões de sobrecarga, chamadas de “overuse”. Recentemente, são relatadas lesões causadas por “overuse” e o aumento das mesmas devido ao maior e ao mais precoce envolvimento de crianças em esporte

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