Modificações Radiológicas da Coluna Vertebral nos Golfistas de Alto Nivel

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golfistaFernanda Cerveira

O Golfe é um esporte que exige muito da coluna vertebral daquele que o pratica.(7,8,13,15) Sendo assim, a incidência de lesões sofridas nas raques é de 24% nos golfistas profissionais (13), chegando a 35 graus nos amadores (14), ocupando o primeiro lugar na escala lesional. Vários autores apontam como primeira causa destas lesões a repetição exaustiva do swing, considerado nos golfistas profissionais como uma verdadeira patologia por sobrecarga.(12,13,23)

Por outro lado, começam a estudar e conhecer os efeitos do esporte praticado de forma intensa sobre o esqueleto em crescimento. O estímulo ou a inibição que os esforços repetidos podem provocar sobre a físis, chegam a transformar o desenvolvimento dos ossos em questão em exagerado ou retardado 6,10. Neste sentido é duplamente interessante o trabalho de Krahl y cols, que comprovou uma diferença de crescimento positiva a favor do antebraço e a mão dominante sobre a extremidade contra lateral, em tenistas profissionais que haviam começado a jogar antes dos 11 anos de idade, praticando o mínimo de duas horas diária. (10)

Analisando os grandes esforços que a coluna vertebral esta submetida durante o swing dos golfistas, e sendo cada vez menor a idade em que começam a praticar este esporte e a maior quantidade de jogadores habilidosos e aspirantes a um futuro profissional, temos tentado neste trabalho comprovar se esta situação poderia ter ou não efeito nas raques desses jovens.

Material e Método

Estudaram 22 golfistas amadores de elite, homens, com handicaps entre 0 e 5, ou seja, de primeira categoria, com idade compreendida entre 15 a 25 anos, e levavam 4 e 14 anos, com um media de 8,5 anos, que dedicavam ao golfe 8 horas diárias em media.

A análise foi feita mediante uma anamnese especialmente dirigida para a história de possíveis dores ou moléstias raquidianas prévias, uma exploração clinica completa e uma radiotelemetria em carga, em placas de radiografias 30×90, em projeções de frente, perfil, oblíquas a 45 graus centralizadas em L5.

Foram descartadas as atitudes escolioticas, redutíveis, as secundarias a dissimetrias de extremidades inferiores e as curvas com um angulo de Cobb menor de 10 graus. 
Infelizmente não existia estudo radiológico prévio de nenhum dos esportistas estudados, o que faz carecer de dados retrospectivos, sendo as conclusões extraídas dos resultados obtidos em função das comparações estatísticas estabelecidas e sua validade mediante test de Student, test de Fisher e X-quadrado. 
Foi considerado p<0,05 nível significativo, para intervalos de confiança de 95%.

Dos 22 golfistas que foram incluídos no estudo, nenhum deles demonstrava dores ou moléstias em sua coluna. Tampouco recordavam ter sofrido lesão alguma deste nível. Não haviam recebido nenhum tipo de atenção medica ou tratamento, nem medida profilática para proteção das raques.

Resultados

Radiologicamente foi constatado uma dismorfogenesis lombosacra com raquitizes de S1 em 2 casos, com uma apófise espinhosa de L5 muito volumosa relacionada a disrafia (de Anquin) em um deles e, num outro, uma distopia articular muito marcada (assimetria das carrilas articulares) em nível L5-S1. Evidentemente estas anomalias congênitas em uma incidência similar para a população geral, não são incluídas e nem predispostas numa serie de alterações observadas como provalvelmente secundarias para prática de golfe. 
Em dois casos foi detectado uma espondilolistesis lítica de L5 de primeiro grau.

Em um deles coexistia uma segunda lísis a nível de L4. Foi observado um acunhamento anterior de corpos vertebrais maiores de 5 graus em 3 casos (13,6%). Em 3 casos manifestaram também hérnias intra- esponjosas de Schmrl a nível de varias vertebras lombares, tal como explicitado na tabela 1. Estas alterações radiológicas não podem ser etiquetadas sob a avocação da doença de Scheuermann dada a expressão clínica desta doença e o assintomático de nossos casos, ainda que numa aproximação comparativa de incidência, aparecem com uma freqüência duas vezes maior que a expressada na literatura para dito quadro. (22)

Cifoses dorsais estavam muito exageradas num caso, em outro havia uma franca hiperlordoses e, em outros dois, um sacro horizontal.
O resultado realmente notável foi a alta incidência de curvas escolióticas estruturadas, com rotação dos corpos vertebrais, longas e de um raio amplo, com um angulo de Cobb de 10 graus ou mais. Em 8 casos eram de convexidade direita, 6 lombares e 2 dorso lombares e, em outros 5 casos, eram esquerdas, 3 dorso lombares e as duas restantes dorsais. O total de 13 escolioses nos 22 golfistas analisados, pressupõe uma incidência de 59%, significativamente maior (p<0,001) que as cifras de 1,4% de curvas maiores de 10 graus recolhidas nas revisões da população adolescente citadas na literatura. Em troca disso, não existe relação significativa estatisticamente falando, entre o tempo que leva praticando o golfe os indivíduos que mostraram uma curva escoliotica e os que não apresentam desvios nesta serie (p=0,3) ainda que a diferença seja significativa (p=0,025) entre os que levam 10 anos treinando (6-7) escolioticos e os que ainda não levam tempo de treino (7 curvas em 15 jogadores). 
O grau das curvas oscilava entre 10 graus e 17 graus, com uma media de 12 graus. Não existe tampouco correlação significativa entre dito grau e o tempo dedicado ao esporte em discussão. 
Somente 4 jogadores apresentaram colunas livres absolutamente de estigmas radiológicos.

DISCUSSÃO

O golfe gera consideráveis exigências a nível da coluna vertebral daquele que o pratica. Com efeito, a raque dorsal baixa e lombar passa de uma inclinação lateral esquerda e uma rotação no sentido das agulhas do relógio no back-swing, a uma inclinação lateral direita e uma rotação no sentido contrário no down-swing, terminando o golpe na hiperextensao, na posição de C invertida. Esta posição, fundamental para jogar um bom golfe, já que incrementa a potência do golpe e sua duração, seguindo a bola e assegurando a exatidão da trajetória, é exagerada com esses fins por muitos jovens. (12)

A inclinação lateral do tronco chega a ser uns 45 graus em relação a vertical e a rotação dos ombros em relação ao plano horizontal entre 45º e 90º, enquanto os quadris giram entre 15º e 45º no mesmo sentido, respectivamente. Esta relação – rotação ombros/rotação quadris é o fator X de McLean,(17) responsável pela velocidade angular do corpo e da longitude do golpe. Para aumentá-las, pode tender a girar mais a cintura escapular restringindo o giro da cintura pélvica, o que coloca a coluna em uma situação de risco.

Os esforços aplicados têm sido medidos por Hosea e Cols., tendo como resultado um momento de torsão de até 35 N, primeiro, no sentido anti-horário até o impacto e, em seguida, horário durante o Follow-through, com uma força de flexão lateral para a direita de até 800N no impacto e um valor similar em Follow-through, e picos de 7.500 N e 550 N em cisalhamento durante o down-swing. (8)

Estes valores estão próximos da resistência dos elementos vertebrais, podendo produzir, por exemplo, a lisis da pars interarticulares. Este fato não é extraído das séries de Balius, de Hoshina, (9) ou de Rossi (21), não aparecendo o golfe como causa de espondiloses. As 3 lisis analisadas em nossa série representam uma incidência de 13,6%, muito acima dos 5% estimados para a população geral e similar a 15% encontrado por Rossi entre esportistas,(21) ou 14% de Hoshina em tenistas, esporte que também exige a hiperextensão, rotação e flexão lateral. A lesão predominante de L5 não é rara, como também não é a Lisis a dois níveis no mesmo indivíduo.(21)

O mesmo pode-se dizer em relação aos elementos anteriores, discos e corpos vertebrais. Esses esforços podem diminuir a sua resistência e dar lugar a uma hérnia intra-esponjosa do disco e dos acunhamentos vertebrais, em uma pseudo forma atípica de Scheuermann.(6)

Classicamente classificam-se dentro da patologia por sobrecarga do golfe, a espondilosis- espondilolistesis e a degeneração, inclusive prematura, de discos e articulações posteriores,(6-8,23) estudando-se extensivamente sua relação com os quadros dolorosos raquideos. Seria novidade a análise das modificações adaptativas da raque em adolescentes e jovens praticantes deste esporte de forma intensiva. 
A aplicação repetida de esforços assimétricos, de flexão lateral e rotação, é sugestiva como causa de desviamento escolioticos, ainda mais quando sua magnitude é muito maior que a insinuada por diferentes autores na Gênesis da escolioses idiopática. 
(18,19)
Em nossa série não resta dúvida a enorme freqüência de curvas descobertas nestes esportistas. O que não está claro é por que uns desenvolvem mais e outros não, em maior ou menor precocidade desses desenvolvimentos segundo o tempo jogado e a apresentação direita ou esquerda, da lombar ou dorso lombar das curvas em questão. Teria que ser estudado mais profundamente um maior número de características antropométricas e biomecânicas destes esportistas e seu swing, mas até o momento nada disso foi feito.

Cabe observar que todos as descobertas radiológicas foram feitas sem história clinica. Portanto nesse caso não se referem a patologia. Pelo contrário, é sabido que as curvas abaixo de 30 graus raramente evoluem sozinhas. Também admite-se que não existe nenhuma condição da coluna lombar que proíba a prática do golfe, sendo possível sua pratica inclusive com uma espondilostesis sempre que haja cuidado e uma boa forma física.(6)

De qualquer forma, a suposição do aviso destes dados é evidente .Balius aponta que a prática intensiva de um esporte deste tipo, “vertebralmente indiferente”, ainda que assimétrico, obriga necessariamente a prática de exercícios compensadores, contra laterais.(1) A prática do “swing invertido”, fazendo rotações dos ombros e da pélvis em sentido contrário do swing durante o aquecimento, melhora a flexibilidade. Também pode recorrer ao “no strain swing”,(3) que minimiza as solicitações da coluna a mercê de uma postura mais relaxada e uma redução do swing encurtando seu final. Terá que ser revisto no futuro a eficácia real de todas estas medidas propostas e aprofundar o conhecimento da atividade muscular nesta atividade.(16)

Bibliografía

Bibliografía
1. Balius R. Problemática del raquis del adolescente y deporte. En: Niño, adolescente y deporte: Ortopedia y traumatología. Monografías FEMEDE nº 1. Murcia, Elbal, 1990, 85.
2. Balius R. Espondilolisis, espondilolistesis. En: Niño, adolescente y deporte: Ortopedia y traumatología. Monografías FEMEDE nº 1. Murcia, Elbal, 1990, 163.
3. Editors of Golf Magazine. The no-strain swing. Golf Magazine 1984, 40.
4. Fleisig GS. The biomechanics of golf. En: Stover CN, McCarroll JR, Mallon WJ (eds). Feeling up to par: Medicine from tee to green. Philadelphia, FA Davis Co, 1994, 17..
5. Gluck GS, Bendo JA, Spivak JM. The lumbar spine and low back pain in golf: a literature review of swing biomechanics and injury prevention. Spine J. 2008;8:778.
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7. Hosea TM, Gatt CJ. Back pain in golf. Clinics in sports medicine 1996;15:214.
8. Hosea TM, Gatt CJ, Gertner E. Biomechanical analysis of the golfer’s back. En: Stover CN, McCarroll JR, Mallon WJ (eds). Feeling up to par: Medicine from tee to green. Philadelphia, FA Davis Co, 1994, 97.
9. Hoshina H. Spondylolysis in athletes. Phys Sportsmed En: Stover CN, McCarroll JR, Mallon WJ (eds). Feeling up to par: Medicine from tee to green. Philadelphia, FA Davis Co, 1994, 17. 1980;8:75.
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20. Robin GC. The aetiology of idiopathic scoliosis. Boca Ratón, CRC Press, 1990, 43.
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23. Vanderlaan VK, Gaines RW. The spine and golf. En: Hochschuler SH (ed.). The spine in sports. Philadelphia, Hanley&Belfus, 1990, 207.

FONTE:

M. Fernández Fairen, J.M. Busto Villarreal, L. Merzthal Toranzo. Sociedad Latinoamericana de Artroscopia Rodilla y Traumatología Deportiva SLARD

http://www.slard.org/index.php?option=com_content&task=view&id=69&Itemid=137&lang=portuguese

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